Início / Noticias / Bartolomeu Cid dos Santos: Criar em Liberdade

Bartolomeu Cid dos Santos: Criar em Liberdade

12 Maio 2026
Nova exposição na Casa das Histórias Paula Rego - Sala Zero. A mostra que pode ver de 14 de maio a 18 de outubro de 2026, é dedicada à obra de Bartolomeu Cid dos Santos (1931–2008).

Em 2019 a Casa das Histórias Paula Rego iniciou um novo ciclo de exposições na sala zero do Museu com o objetivo de apresentar a obra de artistas cujas trajetórias se tenham cruzado, de uma forma ou de outra, com Paula Rego. A ideia de dedicar uma exposição a Bartolomeu Cid dos Santos (1931–2008) surgiu há muito, mas foi com a recente aquisição pela Fundação D. Luís I de grande parte da sua obra gravada que a sua concretização se tornou pertinente no âmbito das comemorações de "Cascais Capital Europeia da Democracia 2026" (ECoD).

A relação de amizade e de admiração mútua entre os dois artistas, que perdurou várias décadas, consolidou-se durante os períodos em que viveram na capital britânica. Em 1956, Bartolomeu Cid dos Santos inicia os seus estudos de Gravura com Anthony Gross na prestigiada escola de arte Slade School of Fine Art e conhece Paula Rego, que se encontra no último ano do curso de Pintura na mesma escola.

Durante a década de 1960, já enquanto docente da Slade, Bartolomeu Cid terá um papel determinante na aprendizagem das técnicas da gravura por parte de Rego. A artista testemunhou que terá batido à porta da sua oficina de gravura para aprender esta prática artística, descrevendo-o como "um professor extraordinário", destacando o modo como "ensinava a técnica de uma forma muito simples, direta e clara", levando os seus alunos a um contacto privilegiado com as obras dos grandes gravadores da Coleção do British Museum, "onde se pode pedir para tirar as gravuras para fora e estudar, e dava-lhes oportunidade para ver e tocar nos originais de Rembrandt, Goya e outros".Numa outra entrevista, Rego terá afirmado que "quando existia a Sociedade de Gravadores em Lisboa, ele ensinou-me a fazer água-forte, a fazer gravuras a água-tinta". Segundo ela, ele era um dos maiores gravadores, sendo por isso grande "admiradora do seu trabalho", e tinha uma "visão e um uso dos pretos e brancos completamente únicos".

A admiração recíproca é genuína. As suas afinidades artísticas traçam-se no percurso paralelo de ambos, numa direção que aponta para a figuração. Bartolomeu refere-se à artista em 1996, na sua correspondência, a propósito de uma exposição coletiva na Hayward Gallery (Londres), como "a única representante da Tradição da Pintura", destacando igualmente a "grande qualidade pictórica" das suas obras de 2000. A cumplicidade artística acentua-se também a partir de referências que vão sendo partilhadas e que serviram de base para as suas práticas criativas. A obra de Jorge Luis Borges, a referência eterna de Goya na gravura, são as mais evidentes. Ideologicamente estavam também muito próximos no modo como denunciaram a ideologia da ditadura e a repressão através da sua arte.

A seleção de obras para esta exposição, com curadoria de Catarina Alfaro e Leonor de Oliveira, teve como ponto de partida estas cumplicidades/coexistências que se refletem nas práticas artísticas de ambos. 

O olhar atento sobre mundo e a sua incondicional defesa da democracia e da liberdade orientaram sempre produção gráfica de Bartolomeu Cid dos Santos. O seu trabalho, que abrange uma larga amplitude temporal, aponta para a existência de ciclos históricos de violência e destruição que procuram desfazer os valores democráticos e as liberdades coletivas, que têm, precisamente por essa razão, de ser constantemente reivindicados, protegidos e consolidados.

Uma exposição a não perder na Casa das Histórias Paula Rego - Sala Zero
De 14 de maio a 18 de outubro de 2026.
De terça a domingo, das 10:00 às 18:00.

Mais informações: Fundação D. Luís I – Bartolomeu Cid dos Santos: Criar em Liberdade

 

+ Sobre cascais